Ensino artístico - uma reflexão

O coro de crianças Mensageiros da Natureza e o coro feminino juvenil Kalindi foram criados em Janeiro e Setembro de 2018 respectivamente, como um lugar para a descoberta da voz inteira que brilha como o sol e ecoa pelos mares e as montanhas! A interpretação musical destas canções, inspiradas nas forças da natureza, nos ritmos africanos e nas melodias de carácter indígena, têm como objectivo principal despertar no intérprete e no ouvinte o sentido da alegria pura, pois acredito ser este o perfeito antídoto para todos os males do mundo!

A poesia é o veículo da profundidade, o canto o da emoção, a dança o da força e a dinâmica de grupo o da consciência. Como criadora destes coros e destas canções, e sendo cantora lírica, naturalmente há um sentido estético inerente ao modo como nos exprimimos, no entanto, e porque sinto a voz cantada como um instrumento vital no desenvolvimento da criança, considero a liberdade como principal objectivo no aperfeiçoamento artístico da criança, sendo que, no que diz respeito ao canto, sinto que as questões técnicas que poderão ser trabalhadas com os exercícios e vocalizos típicos da música clássica, poderão ser prejudiciais na descoberta da voz autêntica. Pela minha experiência enquanto cantora lírica e professora, considero que a técnica vocal, se mal aplicada, vai contra a vontade natural da voz da criança. É preciso ter uma extrema sensibilidade para não violentar o desenvolvimento da voz natural da criança quando cantada, e é preciso, sobretudo, sentir que melodia ou canção dá asas à liberdade pura da criança. Tudo o que venha alimentar uma falsa identidade vocal pode danificar de um modo muito grave a integridade da essência e da individualidade da criança. Deste modo, e a meu ver, o principal foco daquele que "ensina" a criança a cantar, só pode ser a felicidade e a liberdade, e para isto é preciso ter muita humildade, e estar disposto a aprender com a criança que está a tentar "ensinar" - esta é a sabedoria do Professor!

Qualquer canção que venha a exigir um afastamento da alegria natural da criança, seja pela exigência técnica da peça ou pela sua estranheza cultural, poderá criar na criança um sentido de repulsa para com a música. Infelizmente, na minha experiência, assisto continuamente a esses casos, de crianças que estudam um instrumento musical, e que ao entrarem na pré-adolescência, perdem por completo o gosto pela música, seja pela exigência ou pela não identificação com as peças musicais que estuda. Não são raros os casos de desistência do estudo de um instrumento musical pelo exagero no grau de exigência, e por muito que se queira acreditar que o motivo é a falta de capacidade ou que o domínio de um instrumento musical não é para todos, essa não é a verdade a meu ver, esses são os motivos de currículos que vão contra a própria natureza da vida. 

A criança tem naturalmente uma aptidão para a expressão artística, é inato, assim como o seu talento para criar, se se afasta da expressão artística, é porque os veículos utilizados para a motivar não correspondem ao foco interior da energia e da felicidade que possibilita o desenvolvimento das suas capacidades. Por outro lado, é também verdade, que o grau de mestria de um instrumento musical não corresponde ao grau de felicidade interior de um intérprete, sendo este um tema que necessita de uma reflexão muito profunda no ensino artístico! A inteligência emocional, infelizmente, não é tida em conta no desenvolvimento artístico. A frustração do músico que não consegue alcançar a carreira artística e tem que dar aulas para sobreviver, mesmo não tendo aptidão para o ensino (com ou sem mestrados e doutoramentos) é um tema que devia ser profundamente analisado, pois esse sentido de frustração passa para os alunos, seja por via de uma exigência injustificável ou pelas expectativas que cria no aprendiz, ou pela necessidade de fazer valer o seu nome através dos seus alunos! É tremenda a responsabilidade daquele que ensina, há que assumir essa responsabilidade com toda a honestidade e integridade! 

- Frequentei o ensino artístico em Portugal e na Alemanha durante quase 20 anos, foram muitos os professores que tive, e foi também muito o sofrimento que tive que ultrapassar para conseguir romper com as barreiras que me impediam de chegar à minha verdade, ao meu sentido de missão. As lições de vida que tirei no meu desenvolvimento artístico foram extraordinárias, pois deram-me instrumentos de trabalho, mas também me deram a reconhecer as várias correntes que nos podem afastar da nossa vontade mais pura.

Na minha opinião o bom professor é aquele que está disposto a aprender com os seus próprios erros, que está disposto e tem a coragem de mudar, e que não coloca a exigências de um currículo à frente da felicidade do aprendiz. O bom professor é aquele que respeita o tempo, e aquele que sente amor por aquilo que ensina, tendo como motor a própria alegria de ter a oportunidade ensinar! O bom professor é aquele que sabe amar! 

A ideia que pretendo transmitir é que não basta estudar música. A música é importante para todos nós, pois é a ressonância imprescindível e natural do nosso mundo interior, que confere alma à nossa existência, mas um artista que queira expressar-se através de um instrumento precisa também de conhecer a sua sensibilidade e ancorá-la num ponto de estabilidade, para conseguir superar os desafios da sociedade altamente competitiva em que está inserido.

A natureza da sensibilidade artística aliada ao mundo da competição e da contínua busca da perfeição, pode gerar desequilíbrios interiores que podem ser irreparáveis durante uma vida inteira! A frustração, a ansiedade, a inveja, a falta de auto-estima por virtude de uma exigência exacerbada, a ideia ilusória do sucesso, as falsas expectativas, e outras emoções ligadas à construção de uma "ideia" de carreira artística, podem ser evitadas se a criança for aceite tal qual é e se ela conhecer a natureza do seu corpo que dança e canta como a natureza! É preciso dar à criança meios para se ancorar na sua própria naturalidade - em tudo o que faz! Daqui nasce o sentido da simplicidade e da humildade, as duas grandes virtudes daquele que sabe viver harmoniosamente, duas virtudes perfeitamente espelhadas na natureza!

Todas as respostas aos nossos anseios podem ser encontradas no contacto com a natureza, porque é esse o nosso mundo verdadeiro! A cidade é uma construção muito recente na nossa história! É na árvore e no mar que podemos encontrar ressonância com a fonte da nossa verdadeira alegria! É tremendo o ruído que o nosso modo de vida nos impõe, é praticamente impossível escutar com clareza o que nos diz a nossa alma, se não tivermos oportunidade de parar, e desacelerar! Os nossos vários mundos, o espiritual, o emocional, o mental, funcionam a velocidades completamente distintas. O emocional é muito mais lento que o mental, e o espiritual, é esta linha misteriosa que não se gere de acordo com a nossa noção de tempo! É uma dimensão para além do tempo que conhecemos! Como escutar esta "lentidão" se a velocidade é uma contínua necessidade, e se a impomos de um modo castrador às nossas crianças na aprendizagem das disciplinas escolares ou de um instrumento musical!

Toda a música está na natureza! O ritmo começa no sol que nasce e se põe e nos dá a ideia de um padrão que se repete, e está presente em cada palavra que dizemos, a harmonia canta-a o rio e o mar e o bando de aves a esvoaçar os céus, e em nós vive o brado - o primeiro grito quando nascemos é o perfeito espelho da natureza pura da voz e do canto. Afastar-se deste grito, dessa voz que se abre por completo logo à nascença, é afastar-se de tudo o que nos dá vida, e tantos motivos encontramos na nossa sociedade para nos afastarmos dessa voz, desde a vergonha à comparação com aquele que canta muito melhor e tem muito mais sucesso! Que engano tão trágico para a nossa alma, cuja expressão natural lhe é assim arrancada!

A canção que proponho é aquela do tempo sem tempo, uma canção que não venha a violentar a dinâmica do que é natural. É fundamental parar, respirar fundo, ter tempo para observar com profundidade a vida, sentir o corpo e as emoções como fonte de energia e transformação sempre presente no nosso crescimento e nas maravilhosas mudanças que a vida nos dá a viver!

O tempo é a medida da sabedoria. Sorri às flores que tardam e põe os olhos em ti enquanto esperas, estás a tornar-te um sábio.

                                                                                                                  Ana Maria Pinto